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domingo, 18 de maio de 2008

Carta aberta à E-ko, aos restantes autores, comentadores e leitores do Braganza

Cara E-ko,

Como humano que sou, também tenho defeitos. Alguns já estão claramente diagnosticados pelos meus múltiplos “psicólogos”, grupo aliás que a E-Ko decidiu recentemente integrar, atribuindo-me características tão interessantes como fundamentalista, extremista, delirante ou megalómano. O diagnóstico foi, portanto, feito, embora a minha cara E-ko se tenha esquecido de preencher a ficha clínica, indicando em concreto as provas, as evidências e os sintomas que demonstram cada um destes meus "evidentes" defeitos.

Deixando de parte os defeitos que os "peritos e os especialistas em Psicologia" me imputam, passo a falar daquilo que sei sobre mim próprio. Um dos meus imensos defeitos, um daqueles que decorrem da formação, da educação e dos valores que recebemos quando não somos mais do que os “bons selvagens” de que falava o J.J. que viveu lá para os lados de Genebra (e com o qual, por sinal, estou em profundo desacordo, porque a natureza humana está longe de ser “naturalmente” boa), é o defeito de não conseguir tolerar hipocrisias e faltas de coerência.

É por isso que, quem conhece as minhas intervenções daqui e, de outros tempos no Expresso Online, sabe que não aceito lições vindas de pessoas que passam a vida a apontar o dedo aos erros dos outros, quando também eles cometeram os mesmos erros. É o caso, portanto, dos muitos comunistas, que passam a vida a acusar-me de ser fascista, ou que passam a vida a apontar os erros do fascismo, como se eles não só não tivessem cometido as mesmas atrocidades, como ainda hoje as defendem com unhas e dentes.

Um outro grande defeito meu decorre do facto de detestar que as pessoas reduzam a fasquia da discussão de assuntos sérios, preferindo discutir as pessoas, o seu carácter e as suas intenções, em vez de discutirem as ideias, contraporem argumentos ou contestarem os factos objectivos com outros factos objectivos. Normalmente, nessas situações, sobem-me as especiarias ao nariz.
Estou longe de ser o senhor da razão e sei muito bem que ainda tenho muito a aprender. Mas também estou muito longe de ser um mero ignorante. Tal como já lhe disse anteriormente, sou pobre mas estou muito longe de pensar como um pobre.

Tudo isto a propósito apenas de uma coisa muito importante: quando a minha cara E-ko discordar de mim ou não compreender o que quero dizer, é melhor perguntar e pedir esclarecimentos do que passar para o domínio do ataque pessoal ou da instauração de processos de intenções.

A nossa cara E-ko entrou por um caminho que eu detesto: em vez de debater ideias entrou pelo caminho da classificação; em vez de discutir argumentos, começou a discutir a pessoa; em vez de constatar (e compreender, ou fazer um esforço por compreender, a análise dos) factos preferiu mover-me um processo de intenções. Detesto o insulto gratuito e indigente. Não pelo que ele possa representar substantivamente. As especiarias sobem-me ao nariz, quando me chamam fascista ou filho da puta, não tanto pela natureza ou baixo nível do insulto, mas sim por duas razões: porque, normalmente, têm origem em hipócritas, que têm muito mais de fascista na ponta de um cabelo do que eu terei algum dia no meu corpo inteiro, e porque reduzem a bitola intelectual da discussão, limitando-se a colocar a fasquia no rasteiro patamar que lhes é tão adequado.

Tudo isto para lhe dizer o seguinte: as especiarias subiram-me ao nariz quando a E-Ko decidiu baixar a fasquia, ao classificar-me pejorativamente (fundamentalista, extremista, doente, delirante, megalómano...) e ao mover-me processos de intenções (acusando-me de fazer a apologia da subida dos preços do petróleo e de querer soluções não pacíficas para as ameaças e os riscos que enfrentamos). O facto da E-ko ter decidido levar a discussão para esses patamares, levou-me a responder-lhe à letra, classificando-a com expressões menos próprias como “indigente intelectual”.

Agora que os efeitos das especiarias já me passaram, quero dizer-lhe que as minhas palavras eram apenas o reflexo do meu incómodo pela sua recorrência ao ataque pessoal, em vez de se limitar a discutir ideias e a expor argumentos ou factos complementares ou contraditórios.

Deixo, aqui, portanto, lavrado o meu pedido de desculpas por ter usado expressões excessivas e menos correctas como “indigente intelectual”. Foi uma resposta à letra, que acho que mereceu devido à sua atitude menos correcta, mas nem por isso as minhas palavras deixavam de ser apenas isso. Não penso que a E-Ko seja uma indigente intelectual, e o uso da expressão pretendeu apenas dar-lhe a provar um pouco do seu próprio remédio. Não tenho por hábito discutir pessoas quando os assuntos são sérios. Este blogue tem tanto de sério, de crítica social, de comentário político e de divulgação cultural, quanto de paródia, de humor, de sarcasmo ou de ironia. Quando o assunto é humor, as coisas têm um patamar. Quando o assunto é sério, exige-se um outro posicionamento e uma outra atitude intelectual. Eu não produzo ataques pessoais aos meus colegas e muito menos lhes movo processos de intenções. Quando a discussão é séria, a exigência intelectual obriga-nos a colocar a fasquia o mais elevada possível. A discussão de ideias faz-se com argumentos e não com o dedo apontado às pessoas.

Por isso mesmo, deixo aqui o meu pedido de desculpas pelos excessos de linguagem que cometi, até porque não eram verdadeiramente sentidos. Limitavam-se a ser a resposta dura que eu acho que você estava a precisar de provar, para ver se gostava de sentir no “corpo” o ricochete das suas próprias “balas”. Futuramente, se ler os meus textos, peço-lhe apenas e só que não retire conclusões precipitadas, que não confunda o mensageiro com o conteúdo da mensagem, que não me impute processos de intenção e, acima de tudo, que não confunda a exposição de factos com opiniões e muito menos com apologias do que quer que seja.

Os meus sinceros cumprimentos!

sábado, 17 de maio de 2008

Mais alguns factos





O nível de indigência intelectual tem vindo a sofrer “melhorias” significativas. Agora, quando explico as razões pelas quais o preço do petróleo sobe, isso é sinal de que adoro, defendo e faço a apologia de semelhante facto. E de que me estou a borrifar (desculpem lá por não usar a expressão do “vosso” amigo Ferro Rodrigues) para a pobreza ou para as dificuldades dos outros. É como se Newton descesse à Terra para explicar coisas simples como as leis da gravidade ou da aerodinâmica e eles a acusar Newton de ser o responsável por eles não poderem bater as asas e voar. Têm algumas dificuldades em entender factos simples da Economia, como a lei da Oferta e da Procura, cujos princípios são a justificação essencial para a formação do preço dos bens, incluindo o do petróleo. Já disse, e repito, que há outros factores e outras variáveis, para além da Oferta e da Procura, que estão a pressionar a alta de preços. Mas é devido ao aumento desmesurado da procura, num contexto de depleção contínua do petróleo, que se explica este aumento constante dos preços.

Quando você abastece o seu carro de combustível, e faz isso periodicamente, está a emitir um sinal ao mercado. Um sinal que os operadores têm de satisfazer dando resposta a uma determinada necessidade em termos de quantidade e de tempo (x litros de combustível em y tempo). O seu comportamento (o sinal que você dá ao mercado) agregado ao comportamento de milhares de milhões de seres humanos é aquilo que a oferta tenta cobrir. Quando a produção de petróleo começa a escassear, ou se limita a aumentar pouco, enquanto, em simultâneo, a procura aumenta de forma desmesurada, os preços têm necessariamente de disparar. É assim que acontece com o mercado de todos os bens. Há um número cada vez maior de potenciais consumidores de petróleo num quadro de produção cada vez mais restrita e condicionada. Ainda por cima quando as reservas de petróleo que sobram se encontram a maior profundidade, exigem mais meios e implicam maiores custos de prospecção, de exploração e de produção, para além das instabilidades geradas pelas quebras de produção sempre os "nossos" amigos da Al-Qaeda decidem mandar pelos ares uma refinaria ou um oleoduto.

Em 1973, algum técnico da “GALP” teria a missão de negociar a compra de combustíveis para cobrir as necessidades de Portugal. Quando esse técnico se sentava à frente dos vendedores dizia qualquer coisa como isto: “Preciso de combustível para 766 mil veículos automóveis”. Na sala ao lado, um técnico espanhol diria: “Preciso de combustível para 3 milhões de automóveis”. E assim sucessivamente, à escala mundial, a oferta e a procura encontravam a sua regulação. Nesses tempos, o grosso do consumo mundial centrava-se nos países industrializados. Entretanto, nos últimos anos, para além do aumento contínuo da procura, nestes mesmos países, surgiram as economias emergentes, com crescimentos anuais verdadeiramente assombrosos. O "técnico" português que hoje negoceia a compra de combustível para a GALP diz, em Londres, que agora precisa de combustível para alimentar não 766 mil veículos mas sim quase 6 milhões de veículos. E os espanhóis também já não se contentam com combustível para 3 milhões de consumidores. Têm de comprar quantidades de combustível que satisfaçam a procura de mais de 20 milhões de veículos automóveis.

Sucede que, ao longo dos anos 90, a taxa de motorização dos países industrializados continuou a progredir moderadamente mas tem vindo a explodir literalmente nas economias emergentes. Entre 1990 e 2003 a taxa de motorização da China multiplicou-se por 3 e a Índia fez o mesmo entre 1985 e 2002. As estimativas apontam para uma nova triplicação do parque automóvel das economias emergentes entre 2005 e 2020… se não for antes! Nos últimos anos, a taxa de crescimento mundial, de produção de veículos automóveis, tem andado abaixo dos 10%/ano, embora as economias Chinesa e Indiana apresentem taxas de crescimento muito superiores. Desde 2002 que se têm vindo a bater constantemente todos os recordes de produção mundial de automóveis: em 2002 foram produzidos 59 milhões de veículos, em 2003, 60.7 milhões, em 2004, 64.5 milhões, em 2005, 66.5 milhões, em 2006, 69.3 milhões e, finalmente, em 2007, 73.1 milhões. Durante décadas, o mercado petrolífero habituou-se a alimentar essencialmente as necessidades dos países desenvolvidos. Mas, só a China, tem tantos habitantes como todos os países desenvolvidos (1.3 mil milhões de habitantes). E a Índia está logo a seguir (1.1 mil milhões de habitantes). O crescimento desmesurado dos consumos energéticos das economias emergentes vai duplicar e triplicar os efeitos dos consumos no mundo desenvolvido. Apesar de ainda estarem longe dos patamares de consumo energético dos países desenvolvidos, as economias emergentes estão a provocar uma pressão constante sobre os preços, já que a Procura está a aumentar a um ritmo muitíssimo superior ao da Oferta.

Desde 1970, o consumo mundial de petróleo aumentou 57%, no entanto, no mesmo período, só o parque automóvel português, multiplicou-se 7.5 vezes. Consegue imaginar o que sucedeu no resto do mundo? A produção de petróleo é hoje equivalente a cerca de 160% da produção de 1970 mas, entretanto, o número de consumidores multiplicou-se extraordinariamente. O parque automóvel chinês tem vindo a crescer anualmente, a ritmos superiores a 20% e a Índia não anda longe destes números.

No início de Julho de 2005, a OPEP informou que não poderia garantir o abastecimento de todos os países ocidentais dentro de 10 a 15 anos! Entretanto, as economias emergentes estão a aumentar significativamente os seus consumos: em 1990, a Índia consumia o dobro do petróleo que produzia; em 2001, continua a produzir a mesma quantidade, mas duplicou o consumo; em 2003, 65% do consumo de petróleo da Índia era importado.

Para responder ao acentuado crescimento da sua economia, a China precisa de um acesso alargado a fontes energéticas. No ano 2000, as necessidades energéticas da China representavam 10% da procura mundial. Em 2020 irão representar 20%. Em 5 anos a China construiu cerca de 200 mil km de estradas e 20 mil km de auto-estradas, para além de novos portos e dezenas de aeroportos importantes. As infraestruturas de transporte chinesas têm por objectivo sustentar o seu crescimento económico, crescimento esse que, por sua vez, reforça o consumo interno. Os fluxos massivos de pessoas, bens e mercadorias estão a aumentar estrondosamente os consumos energéticos, com destaque para o petróleo. Por outro lado, a urbanização crescente da China provocará uma pressão adicional sobre o mercado energético, já que o consumo de energia dos citadinos é pelo menos 2.5 vezes superior ao consumo das zonas rurais. Em 1978, apenas 18% dos chineses viviam em cidades, enquanto hoje são mais de 40% e num cenário em que a população aumentou estrondosamente. Dentro de 20 anos, mais de 150 cidades chinesas terão ultrapassado o milhão de habitantes. Por outro lado, a economia chinesa é uma das que apresenta maior dependência dos recursos energéticos fósseis. Em 2004, a repartição energética chinesa distribuía-se da seguinte forma: 1.5% de energia nuclear, 5.5% de energia hidroeléctrica, 3% de gás natural, 27% de petróleo e 63% de carvão. Deste modo, 93% dos recursos energéticos chineses são provenientes de energias fósseis.

Há 5 anos atrás, a China tornou-se o segundo país consumidor mundial de petróleo, depois dos EUA, e antes do Japão. No final de 2003, a China tinha reservas confirmadas de petróleo para garantir os seus consumos entre 15 a 19 anos. A China é o 5º produtor mundial de petróleo mas a sua produção deixou de conseguir alimentar as suas necessidades internas. Desde 1993 que as importações petrolíferas chinesas tiveram um aumento médio de 34% ao ano. Mas, só entre 2001 e 2002, cresceram 74%! Desde então, não têm parado de aumentar. A procura chinesa de petróleo representava, em 2003, apenas 7.6% da procura mundial. No entanto, só o crescimento da procura chinesa é responsável por 1/3 do crescimento da procura mundial. Em 2004, a maior parte das regiões do Mundo apresentaram crescimentos próximos dos 2% no que diz respeito ao consumo de petróleo. Mas, o aumento da procura asiática foi de 7.4% e o aumento da procura chinesa foi de 13.7%.
No contexto actual, é este o problema: a procura anda muito mais depressa do que a oferta.

E quem não percebe uma coisa tão simples como esta, que arranje um explicador de Economia básica... para traduzir... já que tudo isto são meros extremismos fundamentalistas das cruzadas contra o aquecimento global que me estão a subir ao capacete...

Já agora, só para terminar: quando eu apresento os casos da China ou da Índia, não estou a acusar ninguém. Estou a falar de factos e não de culpas ou de responsabilidades. Os exemplos da China e da Índia são particularmente convenientes, em termos de exposição, devido à dimensão e à escala dos seus números. Qualquer exemplo se torna facilmente ilustrativo quando se percebe o impacto do aumento desmedido da procura derivado do crescimento das economias emergentes.

E vejam se percebem definitivamente uma coisa muito simples: eu não estou a falar dos aumentos conjunturais mas sim dos aumentos estruturais, pelo que escusam de perder o vosso tempo com conversas sobre os aumentos destes últimos dias no que diz respeito aos meus textos.